Para esta semana, uma sugestão de um escritor moçambicano:
Terra Sonâmbula
Mia Couto
(Caminho)

Um livro que nos leva a percorrer os caminhos de destruição que a guerra deixa atrás de si. Famílias separadas, almas abandonadas e perdidas, sofrimento e morte. Este é o cenário pintado pelo autor, com tons que tanto expressam a dura realidade, como a enriquecem com um fundo místico e mágico. O impossível torna-se realidade no livro de Mia Couto. Um homem que construiu um rio. Uma mulher que ficou grávida para sempre. Um pai que virou fantasma.
O jovem Muidinga e o ancião Tuahir percorrem a mesma destruição que somos levados a conhecer. Uma estrada morta pela guerra dos homens. No meio do nada, procuram um sentido para a sua própria existência. Ou sobrevivência. Num abandonado autocarro, Muidinga vai descobrir um diário de um outro jovem, Kindzu. Noite após noite, as histórias mágicas e aventureiras de Kindzu vão encher o vazio daqueles dois e levá-los a sonhar.
Um retrato literário genial da guerra civil moçambicana. E, algures entre as suas linhas, um rasto de esperança. A certeza de que a guerra não faz sentido e terá invariavelmente de acabar... uma e outra vez. Até o homem aprender finalmente a praticar a paz e viver nela.
O final, esse, é arrebatador e deixa-nos, também a nós, espaço para sonhar.
“Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.”